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Vai pra Cuba, comunista!

Completo 40 anos no final deste ano, e não tive muita oportunidade de viajar fora do país... Mas veio aquela vontade de sair da zona de conforto. Antes tinha viajado, com minha família, apenas para Portugal. E aí surgiu a oportunidade de me inscrever em um congresso bianual em Cuba - Cuba Salud, tinha que enviar o resumo até o final de 2017, e em 2018 veio a notícia que o trabalho foi aprovado. Este Congresso contou com a participação de 83 países e aproximadamente 44 delegações representando ministros de todos os continentes. Veio um frio na barriga, pois nunca estudei espanhol, e algumas pessoas já tinham me falado: "_Vai pra Cuba, comunista!", bem no meio daquele processo de impeachment, que chamo de golpe. O Brasil está vivendo uma guerra híbrida ou guerra não convencional como finalidade a obtenção do pré-sal (link com texto excelente do Pepe Escobar - Jornalista brasileiro especialista em geopolítica), e uma das estratégias é a polarização, gerada pela comunicação, reforçada pela mídia convencional e redes sociais (mídias sociais) (Indico este outro excelente texto da Revista Fórum - https://www.revistaforum.com.br/2049-2/). O termo comunismo é usado por décadas de forma pejorativa e em campanhas difamatórias desde a guerra fria. O capitalismo se tornou algo tão hegemônico, que virou uma espécie de religião, muito sedutor e, por vezes, inquestionável. Às vezes, acho mais fácil acabar o mundo, que acabar o capitalismo. Há a mercantilização da vida, a culpabilização dos pobres pelo seu fracasso e a adoração do "deus" mercado. E quem questiona o capitalismo vira um herege, e logo é taxado de comunista. Vivemos 13 anos de crescimento econômico por causa de vários programas sociais dos governos do PT, porém muitos foram levados a crer, que era uma estratégia comunista, e não de distribuição de renda, em um dos países mais desiguais do mundo. Sempre estudei inglês, meus pais sempre se esforçaram a nos dar o melhor, dentro das condições possíveis. Como nasci no final da década de 70 e começo da década de 80, quando começava o boom da Internet (acho um privilégio ter nascido numa época analógica, com outra noção de tempo, sem bombardeamento de informação e sem ter vivido minha adolescência como um Big Brother...), a gente ouvia falar em "globalização", e pregavam que a língua mundial seria o inglês. Era um tempo de inocência também, lembro um colega perguntou ao professor: "_Professor, devido a globalização, se aqui estudamos o inglês, nos EUA, estudam o português?" Não lembro da resposta, mas já era nítido que globalização era outro nome dado ao imperialismo. Acaba que o espanhol era a língua de quem não gostava de inglês, como se fosse uma língua secundária. A gente não tinha uma visão geopolítica muito bem definida naquela época. Porém, a falta de estímulo para o estudo do espanhol no nosso país, tem como pano de fundo a construção de uma barreira linguística e política com a América Latina. Não é a toa que o espanhol foi retirado como obrigatoriedade na nova reformulação do ensino médio e o mesmo também ocorreu na época da ditadura. Antes os estudantes podiam optar entre inglês e espanhol, agora o inglês é obrigatório... e com o déficit de professores que temos e corte de gastos, muito dificilmente, os estudantes terão acesso a língua mais falada na América Latina. Existem estudos, que relatam estes desencontros, o preconceito entre os povos da América Latina e a criação de clima de competição e hostilidade entre os países vizinhos. Esta condição facilita o processo permanente de colonização, onde sabemos mais da história da Europa, que da nossa própria história (incluindo da América Latina). Nosso sentimento de vira lata (termo criado por Nelson Rodrigues) é tão grande, que recentemente, ouvi falar em América "latrina". Sabemos mais da queda da Bastilha, que as revoltas, que aconteceram no interior do nosso país, como a Cabanagem, Coluna Prestes, entre outros. Por acaso, você já ouviu falar da Santa Dica (é bom pesquisar, você vai gostar!)? Então, voltando ao frio na barriga e na possibilidade de ir, sem falar uma palavra em espanhol, e que no fundo pensava que Cuba seria o fim do mundo, pois se todo mundo te manda pra lá como se fosse um castigo... Cuba deveria ser um lugar muito ruim... Conversando com alguns amigos que já tinham ido, ou estudado por lá, fiquei com mais medo ainda, pois os conselhos eram: "_Por ser mulher, não ande sozinha na rua", _"Leve papel higiênico." E confesso que nunca me senti tão segura pra andar na rua e é a mesma falta de papel higiênico, que temos nos banheiros públicos aqui. E para piorar, assisti o documentário: Cuba e o Cameraman. Neste filme o documentarista,jornalista Jon Alpert, acompanha as mudanças em Cuba ao longo de 45 anos. E Cuba que ele mostra ao final, parecia um país arrasado por uma guerra, devido aos problemas financeiros causados pelo embargo econômico dos EUA e ao fim do apoio da extinta União Soviética. Mesmo assim, lá fui, com mais dois amigos. Baixei alguns aplicativos de tradução e mapas, que funcionam offline. E fui... Sugestões de leitura: Cuba Salud - http://www.cubainformacion.tv/index.php/sociedad/79372-destacan-presencia-extranjera-en-la-finalizada-convencion-internacional-cuba-salud-2018 Guerra híbrida - http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/guerra-hibrida-a-nova-guerra-do-seculo-21-no-brasil/14012017/ Desigualdades - https://www.oxfam.org.br/o-que-fazemos/campanha-contra-as-desigualdades?gclid=CjwKCAjwyrvaBRACEiwAcyuzRA3Ief_thhXo8HseZgR32wwMZVbArX-IGlB93RXoU5ihVzPo3pOyhxoClKkQAvD_BwE Ensino de Espanhol do Brasil - http://www.scielo.br/pdf/tla/v43n1/a11v43n1.pdf O 'Deus Mercado' e a religião capitalista, segundo Jung Mo Sung - https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/O-Deus-Mercado-e-a-religiao-capitalista-segundo-Jung-Mo-Sung/4/36390 Bombas semióticas brasileiras (2013-2016): por que aquilo deu nisso? - https://www.revistaforum.com.br/2049-2/ Sugestão de documentário: O complexo de vira-lata - https://www.youtube.com/watch?v=2_WD7dqGbzk

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